Por Hebert Neri
A diretora Juliana Rojas venceu o prémio de Melhor Direção na mostra Encounters da 74.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o Berlinale, com o filme Cidade; Campo. A produção teve a sua estreia mundial na competição e deverá chegar aos cinemas brasileiros ainda este ano, embora a data de lançamento ainda não tenha sido anunciada.
Com Bruna Linzmeyer, Marcela Vianna e Mirella Façanha no elenco, o longa registou sessões esgotadas durante o festival. Cidade; Campo apresenta um olhar singular sobre a mitologia brasileira, abordando questões sociais, os contrastes entre o meio urbano e rural, além de temas relacionados com migração e género. Outro diferencial é o facto de contar com uma equipa majoritariamente composta por mulheres.
Confira a entrevista exclusiva realizada em Berlim no dia da premiação.
CNT: Antes de tudo, gostaria de parabenizá-la mais uma vez pela obra. Confesso que não é comum vermos um filme brasileiro que dialogue com elementos do terror. Gostaria de saber como vê essa classificação e como a sua visão de mundo se traduz nas telas.
Juliana Rojas: Obrigada pelo interesse no filme. Eu não considero Cidade; Campo um filme de horror, mas ele dialoga com elementos de género. Para mim, é mais um drama existencial com elementos fantasmagóricos e sobrenaturais. De certa forma, relaciona-se com temas e estéticas presentes nos meus outros filmes, tanto os que dirijo sozinha quanto os realizados com Marco Dutra.
Não apenas pelos elementos de fantasia e horror, mas também pelas relações de afeto, pelas protagonistas femininas e pelas questões ligadas ao trabalho. Ao mesmo tempo, é um filme em que procurei explorar novos caminhos e outras possibilidades narrativas.
CNT: O filme tem uma relação muito interessante com a música. Como funciona o processo de escolher quais músicas estarão presentes na obra?
Juliana Rojas: Eu sempre me coloco bastante nos filmes. Tento identificar-me com os personagens que estou a escrever e perceber o que existe deles em mim e também nas pessoas próximas. Na verdade, esse universo do sertanejo e do feminejo faz muito parte da minha vida.
CNT: Ah, é? Por quê?
Juliana Rojas: Porque eu gosto do género. Sou de Campinas, no interior de São Paulo, e crescemos ouvindo essas músicas. Tenho uma relação muito afetiva com elas. A canção Temporal de Amor, que aparece no filme, marcou bastante a minha adolescência.
Existe uma conexão emocional verdadeira e gosto de levar isso para os meus filmes. São cenas que precisam transmitir autenticidade, com personagens a cantar e a divertir-se. Também gosto muito de karaokê. No filme há algumas cenas relacionadas com isso. Acho bonito porque é uma forma das pessoas expressarem sentimentos e emoções.
CNT: E de zero a dez, como se considera no karaokê?
Juliana Rojas: De coração, nota dez. De técnica, acho que cinco ou cinco e meio (risos).
CNT: O filme também aborda o universo sobrenatural brasileiro. Você acredita que, no Brasil, tendemos a valorizar mais figuras como Thor do que personagens do nosso próprio imaginário, como o Curupira?
Juliana Rojas: Acho que existem várias questões relacionadas ao cinema fantástico brasileiro. Existe uma questão mais ampla que envolve a formação de público e o incentivo para que as pessoas vejam filmes brasileiros desde cedo e se reconheçam nas telas.
Ainda precisamos de mais investimento e de um trabalho contínuo para fortalecer essa relação com as nossas próprias histórias. Muitas vezes as pessoas não estão habituadas a ouvir a própria língua ou a ver a sua realidade representada, e isso pode gerar algum estranhamento.
Mas sinto que existe uma grande vontade de ver histórias brasileiras contadas, especialmente aquelas ligadas ao nosso imaginário e ao nosso universo sobrenatural.
CNT: O processo de escolha do elenco foi difícil? Quais critérios utilizou para construir este elenco?
Juliana Rojas: Costumo trabalhar com uma diretora de elenco e discutimos bastante o tipo de atuação e a dinâmica de trabalho que procuramos. Em alguns casos, também convido atores com quem já tive contacto em outros projetos.
A Bruna Linzmeyer, por exemplo, eu já admirava através de outros filmes brasileiros e havia uma vontade mútua de trabalharmos juntas. Já a Mirella Façanha conheci através do teatro. Ela é uma atriz fascinante, com uma presença muito forte e uma visão de atuação e dramaturgia que me impressionou bastante.
CNT: Ainda é difícil ser mulher na indústria cinematográfica?
Juliana Rojas: Sim. A indústria do cinema, tanto no Brasil quanto no mundo, continua a ser predominantemente ocupada por homens brancos cisgénero. Ainda existem poucas mulheres realizadoras e isso reflete-se também na composição das equipas.
Mesmo aqui no Festival de Berlim, que reúne produções de diferentes países e propostas mais independentes, isso é perceptível. Nas funções que constroem a narrativa e a imagem do filme, como argumento, realização, fotografia, direção de arte e montagem, ainda predominam os homens.
No nosso filme procurámos ter uma forte presença feminina nessas áreas e acredito que isso trouxe originalidade e qualidade ao resultado final. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Basta observar os Óscares e perceber como o número de mulheres indicadas para categorias como realização e argumento continua reduzido.
CNT: E quanto ao público alemão e europeu? Como tem sentido a repercussão da sua obra? Acredita que conseguem compreender a cultura brasileira através do filme?
Juliana Rojas: Tem sido muito interessante observar as reações. As pessoas divertem-se nas cenas mais leves, ficam concentradas nos momentos de suspense e acabam conectando-se com temas universais presentes na história, como o luto, as relações afetivas e os vínculos familiares.
Existem também elementos muito específicos da nossa cultura que talvez não sejam compreendidos em todas as camadas. Por exemplo, muitos não sabem exatamente o que é o sertanejo ou o feminejo. Ainda assim, entram em contacto com uma musicalidade diferente e isso amplia o olhar do espectador.
É uma das coisas mais bonitas de festivais como o de Berlim: a possibilidade de conhecer outras culturas, ouvir novas sonoridades e entrar em contacto com realidades diferentes.
CNT: O que acredita que Cidade; Campo traz de especial para esta edição do Berlinale?
Juliana Rojas: Não sei se colocaria dessa forma, como se eu trouxesse algo de diferente. Para mim, o mais importante é ser verdadeira com as histórias que conto e trabalhar a partir do meu repertório e da minha experiência.
Acredito que, quando existe verdade na narrativa, ela consegue comunicar-se com alguém. Não tenho uma preocupação em ser diferente. Há elementos no filme que podem ser considerados inéditos ou inesperados, mas também existem aspectos muito ligados à tradição humana de contar histórias para expressar sentimentos.
A beleza está justamente nisso: conectar-se com aquilo que é familiar e, ao mesmo tempo, surpreender com novas possibilidades.
